sexta-feira, 8 de maio de 2020

O falso inimigo dos tenentes





Nota do autor
Este texto foi escrito em janeiro de 2012

Podemos dizer que integramos a geração dos Tenentes de 64, daquela geração que foi forjada nos anos quentes da Guerra Fria. E esta geração lembra muito a figura do capitão Giovanni Drogo, a figura central do excelente “O deserto dos tártaros”, de Dino Buzzati.
Desde que li esse livro, lá nos anos 80, é que vejo no capitão Drogo o retrato do Tenente de 64. O livro, escrito antes da Segunda Guerra Mundial, conta a desventura do oficial Giovanni Drogo, o qual, aos vinte anos, é nomeado, em seu primeiro posto, para o forte Bastiani, que se ergue imponente e solitário às margens abandonadas do “deserto tártaro”.
Drogo, que espera ficar ali poucos meses, aguardando uma transferência, vê a vida transcorrer sem que sua razão de ser se realize: “transformar-se num soldado verdadeiro, conhecer a glória de participar de uma guerra que, tudo indica, não vai acontecer....".
No romance, o jovem tenente Giovanni Drogo, chega numa manhã de setembro ao seu primeiro posto militar: o Forte Bastiani, para o que deveria ser uma curta temporada de quatro meses e que termina sendo a história de uma vida frustrada.
O jovem tenente Drogo, preso de uma angústia indefinível, quer voltar a sua cidade próxima, chegando mesmo a participar de uma ridícula audiência para transferência, sem êxito; porque há algo indefinível que o força a ficar.
Drogo tinha um sonho, sim, mas nada fez de concreto para realizá-lo. O sonho de um ideal de heroísmo militar, de uma carreira e uma vida inteira dedicada à caserna é dissipado com um dia-a-dia rotineiro – em meio à disciplina e as atividades do quartel – do refeitório ao jogo de cartas e de xadrez etc. E a rotina no forte Bastiani o retém até que a velhice o capture, impotente para reagir ao inimigo real, de forma mais intensa e devastadora do que o invasor que chega: a vida que não se realiza.
O Deserto é o romance de um jovem oficial que passa a vida inteira, frustrado, numa fortaleza de fronteira, esperando o ataque de inimigos que talvez não existam. De um personagem em sua eterna vigília na fortaleza, à espera de um ataque que traga honra e glória.
Este livro, lido há mais de trinta anos, marcou-me muito e traços dele podem ser notados ao longo de tudo que escrevi sobre o papel que nós, militares, deveríamos assumir no pós-regime militar. Como disse um crítico: “O Deserto dos Tártaros é um livro para ou te fazer mudar de vida ou para abandonar essa, dada a profundidade do tema tratado”. Trata-se de uma aguda reflexão sobre a inutilidade do poder. “Afinal, Buzzati nos conta um pouco da vida de todos nós. Você não tem a impressão que, às vezes, está esperando algo acontecer para mudar de vida? Que esse algo está ali, logo ali, virando a esquina, mas você nunca chega à esquina? E que, na verdade, você até sabe disso, mas não quer admitir, que você é o único responsável pelas mudanças?”, continua. Essa a grande lição deste magnífico livro: você é o único responsável pelas mudanças!
De uma crítica, das muitas que colecionei sobre o livro: “O final do livro emociona os que acompanham toda a vida de Drogo dedicada ao forte. De certa forma nos remete aos dias atuais em que muitos se dedicam obstinadamente a objetivos ilusórios, passam sua juventude lutando por um sonho e deixam de viver a vida verdadeiramente.
Depois da leitura podemos nos questionar: o que ando fazendo da minha? Pelo que ando lutando? Em pleno século XXI, se ainda não temos respostas, pelo menos conseguir formular mais claramente nossas perguntas...”.
Assim como Drogo, o jovem Tenente de 64, tinha um sonho bem expresso por um dos integrantes desta geração, na sua despedida do serviço ativo, como oficial general: “A formação da minha geração foi pautada pela constante preparação para o combate. Víamos a possibilidade de emprego assim que saíssemos da Academia”.
Uma espécie de vaidade militar, misturada ao desejo de uma carreira heroica, e ao fascínio impressionante pelas “terras do Norte”, pelo deserto dos Tártaros - selvagem e desolado – molda uma espécie de areia movediça em que o personagem se afunda, lenta e progressivamente, até ao final nada heroico. Tudo conspira para que Drogo fique de olho voltado para o deserto, de onde pode partir o fato que mudará sua vida.
O fascínio impressionante pelas “terras do Norte”, um fascínio pelas guerras dos outros, cujos inimigos e cenários eram e são bem diferentes dos nossos. “Testemunha ocular do planejamento estratégico militar dos EUA, antes e depois do 11 Set 2001. Vi um fantástico estado de prontidão para a guerra”, relembra o general sobre a sua primeira missão nos USA.
Eu tentei fazer com que não nos transformássemos em uma fábrica de Drogos. Um desperdício. Uma geração perdida. Em 1991, fui convidado para fazer uma conferência na IX Conferência Continental da Associação Americana de Juristas, precursor do Fórum Social Mundial: coronel recém punido por entrevista no JB, achavam que estaria ali uma oportunidade para “bater nos milicos”.
Defendi um novo papel, ajustado às nossas demandas e recursos. Mostrei que não tínhamos os bilhões de dólares que o Saddam Hussein havia gastado para montar um exército que acabava de ser triturado na Guerra do Golfo, mas que nada nos impedia de sermos astutos.
Aquela poderosa máquina de guerra dos Estados Unidos dependia da opinião pública americana, dependia dos contribuintes para se mover. Bastaria que não déssemos razões para que fincassem o pé em nossas imensas riquezas minerais, escasseadas com as incertezas do desmanche da URSS. Meio ambiente, índios e narcotráfico, três razões que poderiam sensibilizar os contribuintes americanos a autorizar aventuras em nosso território. Bastavam políticas inteligentes nessas três áreas.
O resto seria se dedicar ao nosso grande inimigo: a miséria. Evitar que se transformasse em combustível para agitação social e para o surgimento desses que aí estão.
Em vez de armamentos modernos, preconizava o emprego da política do “forte apache”, da ideia dos polos do general Rodrigo Otávio, da ocupação dos bolsões de miséria.
Lembro-me que quase fui linchado na tal conferência. Chegaram à conclusão de que eu estava sugerindo abortar movimentos como o dos sem-terra. Acabar com as razões que as ONGs alardeavam pelo mundo para pressionar pela demarcação de reservas indígenas. Reestabelecer o domínio do território sobre bolsões, onde populações vivem sob o domínio do crime organizado, resgatando-as para a cidadania.
Desnecessário provar que teríamos feito uma revolução, a revolução que não fizemos nas décadas anteriores. Teriam, os Tenentes de 64, feito a revolução silenciosa que os Tenentes de 22 não conseguiram.
Por tudo isso, entristeço-me quando vejo que estamos envelhecendo sem ter, pelo menos, encaminhado a construção daquele Brasil dos nossos sonhos de cadetes.
Lamento ver um potencial, como o desta geração de Tenentes de 64, ser desperdiçado na “eterna vigília na fortaleza, à espera de um ataque que traga honra e glória”. Focada no inimigo errado.
No fundo, fica aquela frase do crítico citado lá no início, a tocar a consciência de todos nós: “E que, na verdade, você até sabe disso, mas não quer admitir, que você é o único responsável pelas mudanças”.
Mudanças que não passam por combater comunistas, mas corruptos que, da mesma forma, querem assaltar o Estado, mas para se locupletarem.
No fundo o que este texto deixa é que tanto os Tenentes de 64 como o tenente Drogo desperdiçaram suas vidas porque não souberam mudar de inimigos como aconselhava Roberto Campos (in, “Reflexos do Crepúsculo”); “Saber mudar de inimigos é não só uma receita de sobrevivência como, às vezes, uma receita de sucesso”.

domingo, 25 de agosto de 2019

AMAZÔNIA 4.0: RECONTEXTUALIZANDO A QUESTÃO AMAZÔNICA (I)




Em janeiro de 2018, tentei apresentar uma proposta para inserir o Clube Militar no debate nacional e comprometer os principais candidatos com assuntos que para nós, militares, são de suma importância: a defesa do Estado Democrático de Direito e de seus fundamentos, cuja pedra angular é a SOBERANIA que estamos perdendo no dia-a-dia, pois sem ela de nada valem os demais fundamentos (art.1º), cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político.

Salientava que muitos são os déficits de soberania que estão silenciosamente solapando as bases sobre as quais sonhamos construir uma poderosa nação, um Brasil melhor para nós e para as futuras gerações e que é obrigação nossa, militares, identificá-los, mostrá-los para a Nação e participar do esforço para eliminá-los.
Este o papel do Clube Militar, compatível com a sua história e que o recolocaria na mesa de debates nacional como um protagonista, com a relevância ímpar de buscar o comprometimento de todos os candidatos com o combate a estes déficits de soberania.

A proposta previa um Ciclo de Debates sobre a Soberania Nacional com reuniões nas principais capitais do país, nos meses de março, abril e maio.

Durante o mês de junho de 2018, uma Comissão de Sistematização, elaboraria o documento Compromissos com a Soberania Nacional que seria a agenda para o debate individual com os principais candidatos, ao longo dos meses de julho e agosto.

Para este Ciclo de Debates sobre a Soberania Nacional, além de militares, seriam convidadas lideranças expressivas do meio empresarial, universitário e da sociedade, bem como, autoridades civis e militares. O sucesso destas reuniões estaria na absoluta neutralidade, em relação às diversas correntes que disputarão a eleição presidencial, deixando, sempre, bem claro que o objetivo do Clube Militar é debater questões de soberania nacional, passando longe de qualquer demanda corporativa.
Logicamente, a proposta não recebeu a mínima atenção, pois o foco estava na formação de uma grande bancada fardada no Legislativo, estadual e federal.
Entre os temas propostos constava a Recontextualização da Questão Amazônica que, dada a atualidade do assunto está sendo novamente postado, separadamente.

PROJETO NACIONAL PARA A AMAZÔNIA

Passamos nós, militares, os últimos trinta anos, sentados à margem do debate nacional sobre a questão amazônica, movido por dois paradigmas antagônicos: a conservação total e irrestrita, com a criação de grandes áreas protegidas legalmente; ou a exploração por meio da transformação da mata em commodities, seja por meio da agricultura ou de outras atividades comerciais. E, repita-se, o conselho de Felipe Gonzáles: se quisermos modificar esta realidade deveremos nos dispor a nos molhar porque, nada adiantará ficarmos à margem do debate, indignados com a demarcação de imensas reservas indígenas orquestradas por interesses escusos que, a título de uma preservação da intocabilidade cultural, sacrifica os povos da floresta e nos causa profundos déficits de soberania.

Não podemos nos esquecer de que possuímos quase 70% da maior floresta tropical e bacia hidrográfica do mundo, que conta com 7,8 milhões de quilômetros quadrados, distribuídos entre nove países, sendo um deles uma potência nuclear, de fora do continente. E que de esta imensa área dependerá o futuro do Brasil, da América do Sul e do planeta.


Depende unicamente de nós, brasileiros, o papel que exerceremos no sistema de poder mundial: de um dos principais protagonistas, como uma nação rica, principal agente da integração regional e estabilizador das aflições da humanidade com relação à mudança climática, meio-ambiente, energia e água. Ou de um coadjuvante país periférico com restrições, até no exercício pleno da soberania.
No vídeo, de 6/8/2017, o deputado Jair Bolsonaro, ao abordar o seu projeto para a floresta amazônica, faz uma projeção do que nos ameaça: “Se nós levantarmos aqui o fuzil e falar ‘a Amazônia é nossa’, nós vamos perder a Amazônia. A Amazônia, hoje em dia, não é mais nossa, pelas suas riquezas minerais, biodiversidade, água potável, espaço vazio e etc. Temos que nos aproximar de países democráticos, de poderio nuclear e influência no mundo, para poder explorar em parceria essa região o que é muito mais producente e lucrativo para nós do que nós continuarmos a fazer uma exploração predatória para as nossas riquezas”. Esta, a visão de um dos nossos, que é candidato à presidência da República.
“O mais grave do que a ameaça internacional sobre a Amazônia é o quase total desconhecimento das lideranças nacionais e da sociedade brasileira em relação à Amazônia. O resultado é que a discussão sobre a Amazônia muitas vezes é superficial e equivocada, fruto do desconhecimento da realidade como ela é”, constata Virgílio Viana, Ph.D. pela Universidade de Harvard, Livre Docente pela USP, ex-secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e Superintendente Geral da Fundação Amazonas Sustentável, no excelente artigo A Amazônia e o interesse nacional (revista Política Externa, Mai/2011).

O que importa é que não podemos perder mais tempo, pois estamos correndo sério risco de perdermos o comandamento sobre algo que está em nossas mãos.

Em setembro/2016, na revista acadêmica "Proceedings of the National Academy of Sciences", foi publicado o estudo “O uso de terra e riscos de mudança climática na Amazônia e a necessidade de um novo paradigma de desenvolvimento sustentável”, que propõe a criação de um “Vale do Silício amazônico” para se pesquisar matérias-primas que devem impulsionar a quarta revolução industrial o que vem reforçar a sugestão de Virgílio Viana ( A Amazônia e o interesse nacional, Política Externa, Mar/Abr/Mai 2011): transformar a riqueza da Amazônia em fonte de recursos para erradicar a pobreza na região, valorizar a floresta em pé, reduzir o desmatamento e ampliar as vantagens competitivas internacionais do Brasil.

Este estudo repercutiu na alemã Deutsche Welle, de 21/9/2016: para o empreendedor peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, fundador da Space Time Ventures, incubadora de empresas de tecnologia e que teve a iniciativa de lançar a Amazon Third Way (A3W), a Amazônia é o próximo centro de inovações do mundo, mas ainda é cedo para dizer se a floresta tropical será tomada por laboratórios de alta tecnologia. "Ainda não sabemos como isso vai acontecer exatamente, é um tema que vai durar 20 anos ou mais. Mas sabemos que a capacidade e conhecimento local precisam ser reforçados, e muito", comenta Castilla-Rubio, que compara o nível de dificuldade do projeto "à ida do homem à Lua".

O objetivo da proposta deste empreendedor peruano é mapear os ativos biológicos da Amazônia, registrar e certificar essa propriedade intelectual usando plataformas abertas, sistematizar os direitos e obrigações associados a essas informações e desenvolver um marketplace global, no estilo “Ebay”, de forma a reduzir o custo de pesquisa e transação dessa propriedade intelectual. Esses dados irão fomentar o desenvolvimento de uma miríade de tecnologias, incluindo novas estruturas têxteis, formas alternativas de produção de energia, sensores, algoritmos de inteligência artificial, tecnologias de sequestro de carbono, entre outras.

“Existem cerca de 285 mil produtos derivados da biodiversidade mundial, mas só conseguimos sintetizar 10 mil deles”, afirma Castilla-Rubio. Amazônia concentra 25% da biodiversidade do planeta. A questão é que governos sempre relutaram em abrir esse banco de dados, por medo da chamada pirataria biológica. Mas, segundo o empreendedor, isso, na verdade, criaria um mercado capaz de financiar as pesquisas e a preservação da floresta.

Acrescenta a Deutsche Welle que nesta chamada "terceira via", a proposta dos cientistas enxerga a AMAZÔNIA COMO UM PATRIMÔNIO BIOLÓGICO GLOBAL, que pode impulsionar a nova revolução movida a inteligência artificial e tecnologias que "imitam" a natureza –o biomimetismo. Desvendar de que plantas e animais são feitos, como organismos se locomovem e percebem o ambiente, por exemplo, são a chave para criação de materiais, sensores e até robôs do futuro.

Não podemos nos esquecer do detalhe: Castilla-Rubio é peruano e seu país detém 13% deste condomínio amazônico.

Vale transcrever trechos do excelente “A Amazônia e o interesse nacional”:

a)  É tempo de o Brasil rever o rumo da sua política externa e pensamento estratégico no tocante à Amazônia. A Amazônia é um dos principais ativos estratégicos do país no século 21, mas estamos presos a velhos paradigmas do século passado. Isso tem impedido ao Brasil um posicionamento mais sofisticado e estratégico nos diversos fóruns onde se formata os instrumentos de regramento internacional. Necessitamos uma visão mais contemporânea do que vem a ser o interesse nacional relacionado com a Amazônia.

b)  É necessário revisitar os pressupostos e paradigmas que serviram de base para a formulação da política externa do Brasil em relação à Amazônia. Está em risco a soberania nacional sobre a Amazônia? O interesse e a cobiça externa justificariam uma ocupação militar da região por potências ou organismos internacionais? Devemos defender nosso direito de desmatar para desenvolver? A quem interessa desmatar: ao Brasil ou a alguns poucos brasileiros? Manter a floresta em pé é bom para o Brasil? Devemos ser contra a ligação entre a Amazônia e o tema das mudanças climáticas globais? Estamos tratando adequadamente os assuntos com nossos países vizinhos que fazem parte da Amazônia continental?

c)  Um dos alicerces do pensamento tradicional sobre a Amazônia é a suposição de que haveria planos, complôs e estratégias em curso para uma ocupação militar e política da Amazônia brasileira por potências estrangeiras ou organismos internacionais.

d)  Obviamente, não devemos negligenciar os interesses e movimentos de outros países na região. Temos que estar alertas, inclusive com nossos vizinhos. Felizmente, os militares desempenham com competência sua função de guardiões de nossas fronteiras. Identificar os inimigos certos e nossas metas estratégicas é essencial para vencermos a batalha contemporânea pela defesa da Amazônia.

e)  É tempo de não basear o pensamento estratégico brasileiro na tese da existência de uma conspiração em curso com o objetivo de internacionalizar a Amazônia, pois alegados interesses econômicos de outros países sobre os recursos naturais da Amazônia não precisam de tropas ou domínio militar estrangeiro para usufruir das riquezas da região. Não se justifica o custo e o ônus de uma ocupação militar para garantir o acesso aos recursos naturais da Amazônia.

Nesta proposta de Terceira Via está a grande oportunidade para assumirmos a liderança e fazermos uma recontextualização, deixarmos de lado velhos paradigmas e estabelecermos novas bases para uma estratégia nacional que oriente um projeto nacional para a Amazônia.

O general Villas Bôas, comandante do Exército, em artigo de anos atrás, “Amazônia - desafios e soluções” (Vermelho, 11/9/2015), pauta um debate que seria muito importante que fosse provocado pelo Clube Militar, neste ano eleitoral: “O momento em que vivemos é crucial, pois algumas das escolhas que necessitamos fazer acarretarão consequências possivelmente irreversíveis, legando às gerações futuras os benefícios ou os prejuízos delas decorrentes. A ocupação seguirá sendo extensiva e empreendida livremente como consequência natural de fluxos migratórios ou será conduzida pelo Estado? Privilegiaremos a preservação do meio ambiente ou colocaremos o ser humano como centro e razão de ser dos processos? Seria possível obter o equilíbrio entre ambas as condutas? Os brasileiros de origem indígena serão protagonistas ou permanecerão à margem dos processos? Que prioridade terá a exploração dos recursos naturais? Prevalecerão os interesses nacionais ou permitiremos que posturas internacionalistas a eles se sobreponham? Chamaremos a participar os demais países condôminos da enorme bacia, inclusive no que diz respeito às ações relativas à segurança e ao combate aos ilícitos? Em suma, que modelo a sociedade brasileira pretende adotar para balizar o enfrentamento dessa jornada histórica? É essencial que a nação brasileira se conscientize da grandeza desse desafio, tornando-se necessário que se busque visualizar o que, concretamente, a Amazônia representa para o Brasil e que papel no futuro lhe está destinado cumprir”.

O fundamental, segundo A Amazônia e o interesse nacional, “é a urgência de substituir os velhos paradigmas que ainda influenciam a formulação de políticas nacionais e internacionais relevantes para a Amazônia. Com os conceitos e paradigmas devidamente realinhados, faltará apenas a vontade política e a mobilização da sociedade brasileira entorno destes enormes desafios. O tempo urge diante da gravidade do processo de mudanças climáticas globais. Ainda há tempo”.

quinta-feira, 28 de março de 2019

SONHOS E FRUSTRAÇÕES DE UM TENENTE DE 64 (Onde foi que erramos?)




Nota do autor:
este texto foi escrito em março de 2014

Uma república dominada por sindicalistas pelegos somente não foi instalada em 1964 por duas razões: falta de um líder carismático e a pronta reação das Forças Armadas.
Passado meio século constatamos que uma república dominada por sindicalistas já foi instalada no país por duas razões: a existência de um líder carismático (único gerado pelo regime militar) e a omissão dos militares. A mesma república sindicalista, porém, com uma corrupção muito mais refinada, suportada por uma sólida aliança com o grande capital e garantida por uma base eleitoral mantida pelos cofres públicos.
Onde foi que erramos, a ponto de termos transformado em frustrações os sonhos de um jovem tenente que chegava à tropa, juntamente com 356 companheiros, pensando em ajudar a construir um Brasil melhor?
Uma visão retrospectiva mostra que a intervenção que os militares fizeram em 64 foi para garantir que os interesses superiores da nação não fossem sobrepostos pelos interesses escusos de governantes que estavam na iminência de assumir graves compromissos à revelia da nação, pretendendo interpretar despoticamente o interesse nacional que, no contexto de uma democracia, deve corresponder essencialmente ao interesse real da população, e não aos interesses de grupos dominantes, que não atenda necessariamente às aspirações e interesses legítimos dos diferentes estratos da sociedade.
E o interesse dos grupos governantes apontava para a instalação de uma república sindicalista que, como um câncer, espalharia metástases por todo o Estado e a sociedade, para controlar aquele e subjugar esta. O rumo desta república sindicalista seria dado pela resultante da conjugação de forças que transformariam o Brasil em algo parecido com a república bolivariana em que Chávez transformou a Venezuela.
Reconhecemos que o interesse nacional não pode ser definido como construção intelectual de um grupo, mas, também, que na conjuntura que vivíamos nos anos 60, o Brasil era dividido (como ainda é hoje) em uma maioria desorganizada e uma minoria organizada, onde se conjugam grupos de interesse, entre os quais as Forças Armadas, o grupo que, reconhecidamente, não só é o que mais reflete o perfil da nação como o que tem a consciência mais nítida do que corresponde aos interesses permanentes da nação, aqueles que constituem o núcleo irredutível do conceito de interesse nacional: a sobrevivência nacional, a integridade territorial, a independência, a autodeterminação e a segurança nacional, o bem-estar da população, a defesa da identidade cultural, a preservação dos valores nacionais, etc.
Óbvio que erramos, mas onde foi que erramos, a ponto de transformar sonhos em frustrações?
Erramos porque não tivemos a coragem de fazer a intervenção que a situação exigia e que a sociedade imaginava que fizéssemos. É nossa a responsabilidade porque a sociedade nos deu a oportunidade de corrigir o rumo e desperdiçamos quem sabe, a melhor oportunidade para que nos transformássemos na grande nação com que sonhávamos.
Não vislumbramos a complexidade do problema. Preocupamo-nos somente com o que víamos do iceberg, a Guerra Fria e seus reflexos internos. E não nos preparamos para enfrentar a sua parte submersa, imensamente maior. Não preparamos lideranças à altura dos desafios, gente capaz de praticar uma política de nação, de penetrar no imaginário e nas expectativas das pessoas para delas extrair a síntese das suas aspirações. Contemporizamos com uma política cheia de vícios simplesmente para manter uma caricatura de democracia. Deixamos hibernando uma corrupção que agora ameaça a própria existência do Estado com escândalos e roubalheiras por todos os lados.
Em vez da necessária cirurgia, uma envergonhada intervenção que se traduziu na entrega da Economia para o liberalismo econômico de economistas liderados por Eugênio Gudin, a Política para os velhos caciques políticos, inclusos os mais retrógrados e corruptos coronéis políticos do Norte e Nordeste, reservando para os militares a tarefa de garantir, através do autoritarismo, que estas áreas operassem sem qualquer contestação e a missão de enfrentar a subversão. Não fomos capazes de visualizar a trajetória da sociedade brasileira para preparar o seu futuro.
A criação daquela nação que todos sonhávamos passava obrigatoriamente pela definição de um projeto nacional forjado pela participação organizada de todos os brasileiros, o que somente seria alcançado através de uma profunda reforma estrutural que permitisse, no longo prazo, a criação de um potencial cívico capaz de gerar um projeto de nação forjado por todos os brasileiros, ou seja, a consolidação de um pleno e autossustentado estado democrático.
Para que não fossem mais necessárias intervenções como a de 64 era necessário sermos duros para mudar o rumo de variáveis importantes para o desenvolvimento social. Nosso erro foi usar mal a força que nos autorizaram empregar que se resumiu a um autoritarismo político que foi mais usado para manter um arremedo de democracia –que hoje todos chamam de ditadura- e que faltou para as reformas estruturais que estão atrasando o nosso desenvolvimento.
Autoritarismo político que serviu para a construção de um bolo que acabou sendo servido somente às elites, mas que não foi usado para ocupar de forma ordenada a Amazônia, para impor o projeto Calha Norte como prioritário para a segurança nacional o que teria edificado a nossa tranquilidade naquela imensa fronteira amazônica e para estabelecer uma política para a população indígena norteada por Rondon e não por antropólogos comandados por interesses estrangeiros. Omissões que provocam sérias ameaças à integridade nacional.
Autoritarismo político que não foi usado para criar uma política do cidadão que começasse com um planejamento familiar baseado na paternidade responsável - essencial para a interrupção no curto prazo do processo de geração de miséria- e que continuasse com a criação de um sistema nacional de saúde pública e de educação, para transformar, em uma geração, o brasileiro em um cidadão, capaz de forjar o tão necessário projeto nacional.
Autoritarismo político que faltou para enfrentar a oligarquia dominante e dar mais ousadia na implementação do excelente Estatuto da Terra que certamente transformaria o Brasil no celeiro do mundo e teria desarmado essa bomba chamada MST que mais prejuízos e frustrações causou do que encaminhar uma moderna reforma agrária. Faltou ousadia para decretar índices de produção para as terras agricultáveis, sobre os quais seriam cobrados os tributos, o imposto da terra, fixo, de acordo com o potencial estabelecido, o que premiaria os produtivos e inviabilizaria a posse de terras improdutivas. As terras privadas seriam respeitadas sendo, ao longo do tempo e sem conflitos, consolidadas as produtivas e sendo dilapidadas, pelos impostos, as improdutivas. As terras públicas continuariam públicas e arrendadas pelo pagamento do Imposto da Terra. O Estado ficaria com o papel de indutor da produção primária. Teríamos feito uma inédita revolução agrícola com uma revisão fundiária que, sem violência, corrigiria injustiças do passado. Teríamos tirado, daqueles que só visam à agitação social, a sua maior bandeira. Teríamos dado um exemplo para o mundo e nos tornado o celeiro do planeta, mas fomos incapazes de dobrar os latifundiários que dominavam a ARENA dos grotões, de onde vinham os votos para suplantar os que os grandes centros despejavam no MDB. Teríamos reduzido os efeitos do desordenado êxodo rural e a criação de bolsões de miséria nos grandes centros, origem de uma série de problemas dos quais, o maior, foi a sua transformação em cidadelas do tráfico.
Faltaram autoritarismo e grandeza política para quebrar a espinha dorsal da corrupção e criar as bases do verdadeiro federalismo, invertendo o fluxo dos recursos públicos e declarando o município como o único arrecadador de impostos e centro da geração da cidadania e da administração das coisas públicas. O município como único arrecadador de tributos e pagador de um tributo federal e outro estadual, para custear os respectivos orçamentos. Esta inversão feriria de morte a corrupção endêmica que desvia uma parcela razoável dos orçamentos público e criaria as bases para o domínio público da respública, sonho desde os tempos da Ágora de Atenas.
Faltaram autoritarismo e grandeza política, também, para facilitar o surgimento de uma geração de líderes, capaz de dirigir essa grande nação. Ao contrário, forjaram um bando de eunucos que navegam pela bússola dos interesses daqueles que os financiam ou que os garantem no poder. Faltam-nos líderes em todas as áreas. Este, um dos maiores erros estratégicos dos militares.
Faltou autoritarismo político para fazer uma profunda reforma na máquina estatal, para extirpar dela o vírus da corrupção, para criar um Estado moderno, operado por agentes públicos capacitados e preocupados unicamente com o bem público. Para demonstrar “austeridade democrática”, cortamos na própria carne e deixamos correr solto o resto, permitindo que se criassem e se enraizassem as distorções absurdas em todos os níveis na administração pública que inviabilizam uma reforma séria na máquina estatal. A tal “cota de sacrifício” que nos impusemos, nos condenou a sermos os primos pobres da República com a agravante de não podermos reclamar, pois fomos nós mesmos os autores. Em vez de criar, logo no início, uma política única de remuneração para os servidores públicos com um escalonamento vertical único para todos os três poderes, autarquias e estatais, uma Matriz Salarial Única que envolvesse todos os Poderes, executando as “cirurgias necessárias” nos direitos adquiridos, permitiram que se consolidasse um absurdo desalinhamento que acabou sendo sacramentado com a CF/1988.
Faltou autoritarismo e a visão de estadista para fazer uma revolução na Saúde Pública e na Educação de Base, sabidamente áreas básicas para qualquer projeto de nação e cuja implementação exige muita energia e determinação. Perdemos tempo com Mobral e batendo boca com estudante universitário enquanto devíamos ter focado nosso esforço para interromper o processo de geração de miséria.
Passados cinquenta anos reconhecemos que cicatrizes ficaram, mas também reconhecemos que, sem a Revolução de 64, o Brasil seria, hoje, mais do que uma grande Cuba, seria uma União Soviética porque contagiaria toda a América Latina. Basta ver os amores daqueles que foram por nós contidos em 64 e que hoje nos governam.
O que aconteceu no regime militar foi uma guerra suja que, se descontextualizada, nada mais é do que uma sucessão de atrocidades. Omissões -e mesmo fraquezas- dos chefes militares permitiram que aqueles duros tempos fossem reduzidos a um golpe de militares insuflados pelos Estados Unidos para reprimir inocentes patriotas que só queriam implantar no Brasil uma democracia quando a realidade é bem outra, pois se tratava de gente treinada e suportada pela União Soviética e seus satélites -que cometeram os mesmos ou até mais desatinos que agora acusam os militares- com um objetivo bem claro: transformar o Brasil em uma grande Cuba.
Esta, a visão retrospectiva de um tenente de 64 que sonhou, se frustrou, mas que nunca perdeu a esperança de ver a nação pacificada para que juntos construamos um Brasil melhor.
Péricles da Cunha
(31/3/2014)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

24 ANOS ATRÁS: SUBSÍDIOS POR UM BRASIL MELHOR




Este texto foi editado, 24 anos atrás, na esperança de influenciar a eleição de outubro de 1994, com as idéias, pelas quais luto e continuarei lutando em todos os foros a que tenha acesso.
Este trabalho é fruto da convergência de idéias que garimpei em inúmeros textos e conversas, mantendo sempre o objetivo fixo de aproveitá-las como subsídio para o projeto nacional que oriente a construção de um Brasil melhor.
Em nenhum momento existiu a pretensão de produzir um texto original. A intenção foi iniciar um processo de convergência de idéias  que desemboque num grande movimento de conscientização da sociedade para a gravidade da crise que envolve a nação brasileira.
Começaremos a construir um Brasil melhor a partir do reconhecimento de que os problemas conjunturais que nos afetam, estão embutidos numa crise estrutural que somente será superada com o rígido cumprimento das metas de um projeto nacional de desenvolvimento, ao longo de quatro ou cinco mandatos presidenciais. O que somente será possível com um acordo nacional que comprometa todas as correntes políticas. Caso contrário o Brasil será sempre um país ingovernável. Esta a dura verdade que deveria ser mostrada à Nação por políticos sérios que visem os interesses nacionais e não os seus mesquinhos interesses pessoais.
O texto está, intencionalmente, na sua forma original para mostrar o que poderíamos ter feito nestes 24 anos. Já imaginaram o que seriam esses jovens que empunham fuzis nas favelas e que serão alvos dos snipers, apontados como a solução dos nossos tormentos? Quantos diplomas universitários, quantas medalhas olímpicas, em vez de vagas em presídios?

1- O DIAGNÓSTICO
O Brasil suporta uma das mais graves crises de sua história e que ameaça inviabilizar o seu futuro como nação, se não surgir uma reação  vigorosa da sociedade no sentido de restabelecer as condições necessárias para a construção da grande nação dos nossos sonhos.
Qualquer indicador mostra que a construção de um Brasil melhor exigirá um esforço nacional concentrado, com duração mínima de duas décadas, orientado por um projeto nacional de desenvolvimento que comprometa todas as correntes políticas com o cumprimento das suas metas o que somente será conseguido através da pressão da sociedade  e, principalmente, que conte com o seu aval, porque tal esforço exigirá sacrifícios de uma geração de brasileiros.
Quatro ou cinco períodos de governo, com crescimento contínuo. Enfrentando todos os obstáculos existentes: concorrência no mercado mundial, indicadores sociais extremamente desfavoráveis, uma classe política que consolida, cada vez mais no seio da sociedade, um perfil talhado pelo fisiologismo e pela predominância de projetos pessoais sobre os interesses nacionais, pela consolidação de um Estado empresário e paternalista, onde grupos de pressão se fortalecem na luta pelos interesses corporativos. Tudo balizado por vergonhosos padrões éticos e morais.
Os sintomas da crise afloram por todos os planos da pirâmide social: Uma elite incapaz de administrar a crise e de dar um rumo para o país; uma maioria aturdida, apática e desesperançada; e uma vergonhosa miséria que mantém mais da metade da população sem acesso aos mínimos direitos fundamentais do cidadão. Crise que afeta ricos e pobres: estes morrem de fome e aqueles de medo.

2- O PAPEL DO ESTADO: O ESTADO PARCEIRO
Um projeto nacional de desenvolvimento, com metas de longo prazo, somente se viabilizará se o Estado brasileiro for submetido a uma cirurgia para lhe extirpar o paternalismo e torná-lo um Estado moderno e facilitador do crescimento nacional. O Estado empresário e paternalista inibe o surgimento de uma sociedade vigorosa e dinâmica e de uma economia competitiva, capaz de enfrentar os desafios do mundo moderno.
O Estado deve assumir uma relação adulta com a sociedade. Assim como a sociedade nasceu do reconhecimento da impossibilidade de cada um produzir todas as suas demandas, o Estado surgiu para viabilizar essa sociedade. O Estado tem que deixar de ser paternalista, tem que ser forte. Tem que ser duro.
O papel do Estado não é eliminar a desigualdade social, porque essa é produto da divisão de trabalho. Uma sociedade exige que seus membros assumam papéis que naturalmente provocam uma estratificação social e que somente será reduzida com o substituição das funções mais ingratas (e menos remuneradas) pela tecnologia. Cabe ao Estado, no entanto, minimizar as injustiças sociais, evitando que os mais ricos fiquem cada vez mais ricos, enquanto os mais pobres ficam cada vez mais pobres. O papel do Estado pode ser resumido como o do parceiro da sociedade, como facilitador do desenvolvimento integral da nação e encarregado de promover a igualdade de oportunidades entre os cidadãos.
O papel do Estado é inibir os grupos de pressão e fazer predominar o bem comum, pois o progresso das nações está em relação inversa à importância dos seus grupos de pressão.
Diante de uma sociedade heterogênea, como a brasileira, o Estado deve ter muitas faces. Desde o Estado autoritário que impõe o caminho a seguir -não para submeter o indivíduo, mas para resgatá-lo para a cidadania-, até o Estado pós-liberal, pós-democrático, para se relacionar com o segmento da sociedade brasileira que vive em um estágio de Primeiro Mundo.
O papel do Estado deve ser o do parceiro preocupado em criar o melhor cenário para que a empresa privada possa crescer e adquirir a competitividade necessária à sua inserção na economia mundial. O Estado não pode abdicar do direito de intervir no mercado, para proteger o consumidor e reduzir as desigualdades na aplicação das regras de mercado. Deve deixar a prática paternalista de servir de UTI para empresas que não evoluíram e que se acomodaram sobre a proteção estatal e que têm como lema o capitalismo do lucro e o socialismo do prejuízo. Deve servir de incubadora de empreendimentos de tecnologia de ponta e de grande demanda no mercado mundial, para protegê-los até que adquiram a competitividade exigida à sobrevivência no mundo industrial.

3- A REFORMA DO ESTADO
O Estado deve ser forte. Não existe caso de crescimento econômico sem a presença de um Estado forte. Estado forte, no entanto, não implica em Estado grande. O Estado brasileiro deverá perder massa para ganhar a velocidade necessária a acompanhar as mudanças da economia mundial, para ser o parceiro da iniciativa privada na modernização do país.

DESCENTRALIZAR PARA NÃO FRAGMENTAR
O centralismo torna o Estado lento. A distância entre as demandas e a fonte dos recursos facilita o clientelismo e a corrupção. Pela necessidade de intermediação para a liberação de verbas e dificuldade de controlar. Descentralizar significa dar um golpe mortal na corrupção organizada, nos mega corruptos e aprimorar o atendimento ao público.
É urgente a descentralização, em busca do verdadeiro federalismo e do crescimento econômico. Dar aos estados autonomia para administrar as suas receitas e despesas. Para ajustar a sua politica industrial e agro-pecuária às suas características, visando a otimização dos meios de produção. Para ajustar a politica fiscal e de incentivos.
Ao município caberia um papel importante, como célula do sistema de administração pública. É no município que nascemos e vivemos. É a partir do município que começaremos a melhorar a qualidade de vida, a diminuir as desigualdades sociais e a estimular o exercício da cidadania.
Descentralizar significa  criar o ambiente ideal para o pleno desenvolvimento regional. Facilitar a inserção das regiões na plataforma mundial de produção de mercadorias, sem ter que carregar o fardo pesado das regiões atrasadas. Criaremos, assim, ilhas de prosperidade que, naturalmente, ajudarão as demais a crescerem, pelo exemplo e pela necessidade de gerar mercado para os seus produtos.

O ESTADO FEDERADO
A política de distribuição dos recursos federais, tipo Robin Hood -tirar dos estados ricos para aplicar nos estados pobres- não funciona pela razão de que não basta dinheiro para resolver o problema da pobreza.
É necessário que exista a capacidade de transformar esses recursos em benefício, com o mínimo de perdas. A prática mostra que é nos estados pobres onde campeia a corrupção, a incompetência,  o fisiologismo e o clientelismo que impede a aplicação criteriosa das verbas e agrava o quadro de injustiça social.
Os recursos devem ficar nos municípios onde foram coletados os impostos. Estimulará o aumento da arrecadação pois os contribuintes verão o retorno de seus tributos e fiscalizarão a sua aplicação. A democracia brasileira começará a se consolidar a partir do município, com a prática da democracia participativa, com a efetiva participação do cidadão que influenciará na aplicação dos recursos e no controle social.
As regiões ricas investirão nas mais pobres para evitar grandes desníveis sociais que afetarão suas economias. Os estados ricos exportarão os seus excedentes de riqueza para evitar a importação forçada da miséria. O governo da União será o agente integrador e promotor dos investimentos.

O ENXUGAMENTO DO ESTADO
O processo de privatização, sem ameaçar os interesses estratégicos nacionais, deverá gerar empregos na cadeia produtiva em que estiver inserida a empresa a privatizar, ganhos de produtividade e tecnologia, lucro para o Estado e benefícios a médio e longo prazos para a sociedade.
O enxugamento da máquina estatal pode ser feito através de processos criativos que incentivem a migração de funcionários públicos para a empresa privada sem causar problemas sociais.
A terceirização é uma das saídas. Incentivo à formação de pequenas empresas criadas por ex-funcionários para assumirem funções que antes eram feitas pelos próprios funcionários.

A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
A adaptação do Estado brasileiro às exigências de qualquer projeto sério de desenvolvimento de longo prazo, exigirá o resgate da dignidade da função pública, com a preparação de uma burocracia estatal competente, honesta e imune à política partidária.
É necessário criar uma geração de eficientes funcionários públicos que dê origem a um processo multiplicador, para melhorar a eficiência da administração dos negócios públicos e a qualidade dos serviços prestados à sociedade.
O insolúvel problema da isonomia previsto na Constituição seria resolvido pelo estabelecimento de um escalonamento vertical que abrangesse todo o serviço público dos três Poderes, da Presidência da República às prefeituras, passando pelas autarquias e demais tipos de serviço público. O presidente da República ocuparia o topo da pirâmide e, a partir daí, se distribuiriam os demais cargos pagos pelos cofres públicos.

4- A POLÍTICA E A ÉTICA
Uma das três condições necessárias ao entendimento da sociedade em torno de um pacto nacional e de um projeto nacional de desenvolvimento de longo prazo é o estabelecimento de padrões éticos e de austeridade que conduzam à racionalidade econômica e à seriedade no trato da coisa pública.

A CORRUPÇÃO E SEUS EFEITOS NA SOCIEDADE
A corrupção debilita o Estado porque o torna instrumento de enriquecimento de uma minoria em detrimento da sua destinação de promover o bem comum, o que o desacredita e o desmoraliza perante a sociedade fazendo-a acreditar que o Estado é nocivo aos seus interesses, abrindo espaço para aqueles que o desejam mínimo e fraco enquanto sabemos que uma nação somente progride soberanamente se capitaneada por Estado forte e parceiro de uma moderna iniciativa privada. Um Estado corrupto é um Estado fraco e com um Estado fraco não existe desenvolvimento econômico. Estado forte não significa Estado autoritário mas aquela organização capaz de cumprir as suas metas econômicas, graças ao apoio da classe política e de uma burocracia competente e honesta.
A corrupção desmoraliza o sistema democrático porque elegemos representantes para que cuidem do interesse público mas o que fazem é cuidar dos interesses privados transformando as casas legislativas em balcão de negócios escusos e de troca de favores fisiológicos. Desmoralizam a função política e abrem espaço para aqueles que sonham com a volta do regime autoritário.
A corrupção aumenta as desigualdades sociais porque enfraquece o Estado e um Estado fraco não é capaz de cumprir as suas funções básicas de cuidar da Saúde, da Educação e da Seguridade dos mais pobres. Um Estado fraco não é capaz de remunerar adequadamente seus servidores, de forma que se qualifiquem, se motivem e se instrumentem para prestar serviços públicos de qualidade compatível com um país que almeja crescer e se transformar em uma grande nação, compatível com as vantagens naturais que a colocam em destaque na comunidade mundial.
A corrupção gera um estado de desconfiança que pode ser o mais grave dos impactos que a sociedade recebe. A sociedade é um conjunto de expectativas recíprocas, onde cada um espera que os demais cumpram com o seu papel. Quanto maior o estado de confiança, melhor o funcionamento da sociedade, mais forte a eficiência social.  A corrupção espalha o vírus da desconfiança na sociedade e se nada for feito a tendência é destruí-la, lenta, mas inexoravelmente.

A GANÂNCIA
A crise ética que corrói o país chama-se ganância e tem na omissão da sociedade o seu grande responsável.
Ganância dos empresários que financiam políticos nas campanhas para depois deles tirar vantagens.
Ganância daqueles que mesmo sabendo que o lucro é resultado do produto de margem de lucro por rotatividade, buscam o caminho mais curto de maximizar a margem, o que efetivamente produz o resultado mais fácil e imediato, mas que não é duradouro nem contribui para uma sociedade justa, pois elitiza o consumo deixando à margem a grande maioria da população. Obter lucro através da maximização da rotatividade, de um maior giro, implica em investir mais em tecnologia, em recursos humanos, para aumentar a produtividade, em remunerar melhor a mão-de-obra para aumentar a base de consumo. Tudo isso produz maior estabilidade da Economia, mais justa distribuição de renda, maior estabilidade para as empresas.
Ganância daqueles que depredam o Meio Ambiente. Não se preocupam com os estragos -muitas vezes irreparáveis- em busca de vantagens para os seus negócios. São imediatistas. Não pensam no seu futuro, nem no das próximas gerações.
Ganância daqueles que exploram os seus empregados em busca de um pouco mais de lucro imediato, sem pensar no aumento da produtividade resultante de uma politica de valorização profissional.
Ganância daqueles que nas eleições trocam seu voto por um favor qualquer sem pensar que a experiência comprova que tais políticos e tais práticas é que são os grandes responsáveis pela corrupção que corrói a nação.

A VALORIZAÇÃO DA FUNÇÃO POLÍTICA
A nova ordem nacional não pode prescindir de uma classe política que facilite a articulação dos anseios da sociedade, compatibilizando-os com a Lei, com os recursos públicos e com os interesses nacionais.
A função política é vital para o regime democrático. Cabe à Política a função indelegável de administrar o presente e organizar o futuro.
É necessário resgatar a imagem do político, do desgaste provocado pelo uso da política como meio de intermediação de grupos com o Estado.

O PAPEL DO EMPRESARIADO
O triunfo do capitalismo como sistema econômico, somente ocorrerá com uma classe empresarial dinâmica empreendedora e moderna, que veja na concorrência um bem -na forma de se superar- e não um mal, protegendo-se à sombra de um Estado paternalista que mantém UTI's, para o socorro de empresas esclerosadas, em vez de incubadoras de empresas de tecnologia de ponta.
É necessário criar uma classe empresarial que pregue o afastamento do Estado da Economia, mas que assuma as suas responsabilidades. Se o empresário se conscientizar de suas responsabilidades sociais, o Estado não terá razão para interferir, para compensar a sua falta de benevolência, de sensibilidade social.

5- A  POLÍTICA  DEMOGRÁFICA
A equação demográfica brasileira somente será montada de acordo com os interesses nacionais se considerar:
(1) Os nossos recursos não permitem a manutenção de taxas expressivas de crescimento populacional. Precisamos, no entanto, manter a qualquer custo a nossa capacidade de crescer. Entre as medidas urgentes estão campanhas de informação sobre as formas de controle de natalidade e a colocação de recursos à disposição das populações pobres. Devemos dar à mulher pobre o mesmo direito da mulher de classe média: de engravidar ou não.  O controle da taxa de natalidade deverá ser feito através da educação e da promoção social e nunca pela criminosa prática de esterilização de jovens mulheres, como vem ocorrendo de forma maciça no Nordeste.
(2) O nosso problema não é o crescimento populacional que vem desacelerando rapidamente: caiu de 3% para os atuais 1.9%, em quarenta anos. O problema é a paternidade irresponsável. Os causadores: pais irresponsáveis e Estado paternalista. Pais irresponsáveis que, sem a mínima condição, continuam a criar problemas para a sociedade, através da geração de filhos que são atirados na rua para que o Estado assuma e encargo de criá-los.
Uma nova ordem nacional exigirá uma política severa quanto ao menor: paternidade responsável. O Estado não interfere no planejamento familiar, mas exige que os pais deem ao menor o mínimo estabelecido em lei. Caso contrário os pais serão chamados à Lei. O Estado não pode administrar a irresponsabilidade dos seus cidadãos.
(3) Deveremos nos preocupar com a distribuição da população no território. Anualmente geramos uma população de um Uruguai. Sem planejamento para a alocação dessa população, teremos imensos problemas a se somarem aos já existentes.

6- POLÍTICA EDUCACIONAL
O Brasil somente conseguirá acesso à sociedade pós-industrial se produzir uma revolução educacional, com a revisão estrutural de todo o sistema de ensino. Os atores, o processo, o suporte e o ambiente deverão ser reavaliados para se ajustarem à uma política educacional que produza uma força de trabalho capaz de obter vantagens competitivas para a economia brasileira, o que consiste, basicamente, em desenvolver habilidades para produzir ou absorver tecnologias para a fabricação de produtos de grande demanda no mercado mundial, transportá-los para os mercados consumidores e colocá-los à disposição dos consumidores, com qualidade e preço que os tornem competitivos diante da concorrência.
Precisamos de um sistema de ensino adaptado a nossa realidade. Que se integre ao sistema produtivo através da conexão entre estudo e trabalho, para alavancar o desenvolvimento nacional. Que forme uma mão-de-obra versátil, capaz de se adequar às rápidas transformações tecnológicas que caracterizam a moderna sociedade industrial. Que produza conhecimento, o mais importante dos fatores de produção da sociedade industrial. A produtividade depende da difusão social do conhecimento, indispensável à geração de vantagens competitivas.
A revolução educacional deverá se concentrar na universalização e no melhoramento qualitativo da Educação Básica. Na preparação desde a pré-escola, de uma geração apta a enfrentar um moderno processo de aprendizado. Na qualificação da juventude e na obtenção de razoável taxa de recuperação de adultos.
A revolução educacional somente terá sucesso se contar com um corpo docente preparado e valorizado profissionalmente. Com um corpo de administradores do sistema de ensino especificamente formados para tal função, mantendo o corpo docente liberado de qualquer função na administração escolar. E com um sistema de controle que faça o permanente acompanhamento do processo de ensino, fiscalizando o desempenho de professor e alunos, bem como, rígido cumprimento dos currículos escolares.

7- REVOLUÇÃO AGRÍCOLA
O Brasil deverá ser transformar no grande celeiro do mundo. Para isso, deveremos deixar de lado dogmas e demagogias e encarar pragmaticamente o problema. Uma revolução agrícola somente surgirá no Brasil, se tivermos a coragem de redefinir variáveis dominantes, entre as quais, destacam-se:
(1) A propriedade privada deve ser respeitada mas o Estado cobrará os tributos de acordo com a potencialidade do solo e infraestrutura disponibilizada.
(2) A terra -dom de Deus- que tudo produz para o homem, deve ser considerada um bem social e, como tal, deve ficar sob a guarda do Estado, que programará a sua produção e a cederá para que os cidadãos produzam. O Estado não tem o direito de dar essas terras a quem quer que seja. Deve cedê-las para aqueles que demonstrarem capacidade de produzir o que foi planejado. O cumprimento das metas de produção estabelecidas pelo Estado será a garantia de posse das terras. Todas as terras do Estado e as não produtivas, conforme a lei, deverão ser enquadradas nessa orientação.
(3) É necessário estimular o surgimento de um cenário favorável, não só à interrupção do fluxo migratório do campo para as cidades, como a sua inversão, aliviando as cidades das graves pressões causadas pelos cinturões de pobreza sobre a infraestrutura e os serviços públicos. A implementação de agrovilas e de agroindústrias que ofereçam condições de atrair as massas marginalizadas das grandes cidades, que se disponham a retornar às atividades originais, em busca de um ganho considerável de qualidade de vida. Em vez de favelas, agrovilas.
(4) Estímulo a criação de zonas para produção de alimentos para exportação (ZPE-agrícola), onde grandes áreas seriam cedidas à empresas estrangeiras para a produção de alimentos para exportação, com a condição de instalar centros de pesquisa com cientistas brasileiros para a transferência e adaptação da mais avançada tecnologia em engenharia genética aplicada à agricultura.
  
8- INSERÇÃO NOS MERCADOS MUNDIAIS
Outro aspecto a considerar, nesta transição para o Primeiro Mundo, é que se quisermos pertencer ao mundo desenvolvido deveremos crescer continuamente, a taxa de 7% ao ano, pelo menos 20 anos seguidos, o que significa que o nosso PIB passará de US$ 350 bilhões para US$ 1.400 bilhões.
Aí o problema: onde colocaríamos essa produção? Hoje, exportamos algo em torno de US$40 bilhões. Se as exportações crescessem linearmente, exportaríamos US$160 bilhões. E onde colocaríamos os outros US$1.240 bilhões? Se hoje produzimos US$350 bilhões e exportamos US$ 40 bilhões, significa que consumimos US$310 bilhões. Teríamos que quadruplicar o nosso potencial de consumo. Ou abrir mercados. Ou ambos.
Aí entra o papel do Estado, para traçar estratégias que garantam o crescimento estável do país. O Estado parceiro. Aquele que prepara o caminho, o mercado, para a iniciativa privada que dá o retorno através dos impostos pagos e dos empregos que mantém.
Exportar mais significa gerar vantagens competitivas em todos os campos da Economia. O Estado deve gerar estabilidade, construir uma infraestrutura econômica e facilitar a geração de uma população saudável e instruída, fatores necessários à atração de capitais estrangeiros para ganhar conosco e financiar o nosso desenvolvimento.
O Estado moderno tem que ter a capacidade de prever em que direção sopram os ventos de mudança para manter a economia nacional com vantagens competitivas nos novos cenários que se formarem. Significa muita tecnologia e produtividade. Uma politica industrial moderna, uma politica cambial justa e confiável.

9- FORÇAS ARMADAS
A reforma militar, necessária a ajustar o perfil das Forças Armadas ao esforço nacional para construir um Brasil melhor, exigirá mudanças estruturais profundas no plano organizacional e, principalmente, no perfil do novo militar que deverá ser forjado através da consolidação da carreira militar, suportada por um plano de carreira e o correspondente plano de vida. Como plano de vida entenda-se o suporte dado ao militar e seus dependentes, de forma que possa se dedicar exclusivamente ao seu permanente aprimoramento profissional.
A proposta é que as Forças Armadas sejam organizadas, sob a coordenação de um Ministério de Defesa. O modelo para a força terrestre prevê três áreas: A Central Militar, o Centro de Tecnologia Militar e o Serviço Nacional.
A Central Militar seria uma força de resposta rápida, fruto da integração da Marinha, Exército e Aeronáutica, ajustada às características regionais e aos nossos recursos. Tropa profissional. Potência, flexibilidade tecnológica e mobilidade operacional, o seu perfil. Adotando a estratégia da dissuasão, será o braço armado, suficientemente forte e longo para garantir os espaços vitais que viabilizem o mercado brasileiro, na obtenção das matérias primas que necessitamos importar e na abertura para os nossos produtos.
O Centro de Tecnologia Militar, potencializando a experiência dos militares em Ciência e Tecnologia, na busca da perfeita sincronia da indústria nacional com a indústria de material de Defesa, de forma a estimular aquela e gerar soluções nacionais no campo militar.
O Serviço Nacional será o Exército da Paz. Encarregado de ombrear com a sociedade civil no grande esforço para reduzir a miséria a níveis suportáveis. Suas armas? As exigidas para o cumprimento da missão. Seu lema? O de Rondon, o grande inspirador desta força: "Morrer, se preciso for. Matar, nunca". Aos soldados da paz caberia o suporte à ocupação racional dos vazios geográficos, dando segurança, construindo casas, fábricas, escolas e hospitais, esgotos, canais de irrigação e sistemas de telecomunicações. Oferecendo ajuda médica e ajudando na educação. Preparando a reserva, integrando a Nação  e tornando-a militarmente preparada para a defesa de sua soberania.
Março/1994